O Real Desfrute do Vinho

Desfrutar de verdade do vinho pressupõe abster-se da importância da marca, da influência da crítica e do preço como suposto indício de qualidade, coisas que não, necessariamente, tem relação direta com o gosto pessoal de cada consumidor. 
 
Pressupõe pensar única e exclusivamente na própria satisfação, condição na qual qualidade sugere agradabilidade. Mas quantos apreciadores de primeira instância ou mesmo veteranos o fazem de verdade? 
 
Todos nós sabemos que o vinho é um complemento alimentar, e que como tal seu fim maior é a mesa, onde em perfeita sinergia com a comida é capaz de transformar um simples repasto numa experiência sensorial única e inesquecível.
 
Porém se fizéssemos uma enquete para saber quantas pessoas pedem vinho no restaurante com esse propósito, veríamos que a grande maioria dos bebedores o faz por motivos outros, como modismo, ou simplesmente porque gosta de vinho, independentemente de ele ter ou não algo a ver com o prato em questão. 
 
Isso para não falar dos apreciadores de rótulos, para os quais o mundo do vinho é um jogo de cartas marcadas. 
 
Diante disso, alguém poderia dizer que a razão seria o desconhecimento sobre harmonização, entretanto, isso não se justifica dada à simplicidade do tema, à farta oferta de informações disponíveis nos livros, revistas e internet, e a presença, em alguns restaurantes, de profissionais capazes de auxiliar o comensal a contento. 
 
É quase certo que o baixo número de Sommeliers atuando nos restaurantes do Brasil, e, sobretudo do Nordeste, deve-se a esse desinteresse dos comensais, aliado ao pouco encorajamento dos restauranteurs de investir no que seria algo vital para qualquer estabelecimento de restauração. 
 
Se usarmos Natal como exemplo, é possível afirmar que os natalenses estão cada vez mais íntimos dos vinhos, como, aliás, asseverou alguém cujo nome eu não lembro agora: “em Natal ou se é enólogo ou se é corredor”, algo sobre o que concordo apenas parcialmente, tendo em vista que a crassa maioria de nós é neófito (neophytus – recém batizado) ou enófilo (eno + phylus) do grego = amigo do vinho. Enólogo (eno + logos) é o profissional que elabora o vinho, o feitor da bebida. 
 
Essa moda do Brasil, aliada ao sucesso de alguns grandes vinhos do velho mundo, fez surgir nesse universo de Baco (sobretudo no novo mundo) um dúbio conceito sobre o uso da bebida. E, assim, hoje existem vinhos para harmonizar e vinhos para degustar, como se o comer fosse algo meramente fisiológico.
 
 

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