Criações e releituras: ame-as ou deixe-as

Tenho passeado pelos restaurantes da cidade e também de fora do estado e me encontro, nesse momento, no sudeste do país. E presencio um contexto que já perdura há alguns anos, como se fosse uma “nova” maneira de se cozinhar, de olhar a culinária com olhos “modernosos” e dar aos clássicos uma “nova cara”, uma releitura ou até mesmo chamar de uma criação deste ou daquele cozinheiro.
 
Claro que é válido esse novo olhar, novas experiências e, principalmente, sentir no mercado consumidor uma sensação de novidade e tendência. Porém, o que tem me incomodado, confesso, embora não só a mim, pois tenho recebido um feedback a esse respeito, é que esfaquearam, eliminaram, torturam os maravilhosos sabores presentes em nossas lembranças afetivas e gustativas em nome da criação e da releitura!
 
Perdeu-se a noção? Chefes famosos e estrelados acabando com moquecas, destruindo feijoadas, assassinando galinhadas, estripando literalmente sarapatéis, picados e buchadas e o pior: para depois se debruçarem em horas e horas de pesquisas, defesas, seminários, eventos em prol da “comida de raiz e de identidade gastronômica do Brasil”. Será que eu é que sou maluco? Será que eu é que sou antiquado? Retrógrado? Purista? Fundamentalista? Tenho certeza absoluta que não sou. Pois também tenho e já tive cardápios assinados com releituras, sensatas! Óbvio, sem destruir ou jogar na lata do lixo anos de tradição cultural, de hábitos alimentares de gerações que construíram suas bases no gestual, no sabor, no afeto e no fazer desses alimentos.
 
Quando vejo o sucesso de um restaurante local, dando ao comensal exatamente aquilo o que ele busca, satisfazendo sua expectativa e ainda mais: fidelizando o cliente para que ele retorne muitas vezes, eu me alegro-me e percebo que ainda existe salvação no mundo da culinária criativa e respeitosa. Alegrai-vos, nos diz o Senhor: Eles sabem o que fazem!!
 
Essa lauda não tem por objetivo obscurecer ou embotar os talentos antigos ou vindouros, mas tem o objetivo de trazer à tona, a discussão da sensatez, do respeito, da análise criteriosa e da defesa de uma bandeira honesta de se fazer gastronomia e ressaltar a culinária brasileira, seja ela de que região for. Vamos, sim, ver, rever, ler, reler, degustar, apreciar, porém sem se deixar levar pelo modismo assassino das correntes midiáticas, que se enriquecem em discursos vazios na frente das câmeras e nos bastidores se enlouquecem para cumprir com suas folhas de pagamento e manutenção de seus negócios de restauração. 
 
Pensemos nisso. Boas leituras e releituras.
 

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