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O lado Narciso do vinho
A adoração do apreciador de rótulos não é pelos valores sensoriais do vinho raro, especial, singular que ele aprecia com os seus pares. É, antes por si mesmo, pelo seu narciso, que possuidor de tal objeto, torna-se um sujeito empoderado.
Analisar o vinho por esse prisma é esquecer que o melhor do vinho são as pessoas e que o melhor das pessoas é a partilha. O vinho sempre será um meio, nunca um fim. É por intermédio dele que desfrutamos – entre pessoas queridas – de alguns bons momentos da vida e não para ele. Ele está a serviço do nosso prazer e não nós a serviço dele. Nós, humanos, somos seres inquestionavelmente sociáveis e nossas vidas só ganham sentido e valor na medida em que partilhamos nossas experiências com os nossos pares, que, curioso, tanto mais nos enriquece como pessoas, quanto mais sejam díspares de nós.
Sem as pessoas não existiria a vida (humana) e, portanto, nada mais existiria. O vinho e tudo o mais que houver dentro do contexto da vida, que nos dá prazer, ganha sentido, movimento, luz, cor e sombra por causa da potência humana, que pulsa em nós e confere valor. Partilhar é humano e é na partilha que as vibrações se equalizam, a sintonia se estabelece e o divino em nós eclode, fazendo-nos sentir espécie da mesma espécie. Isso permite a troca, o crescimento e o enriquecimento pessoal, especialmente se tal troca contiver pitadas dissonantes que faça com que a melodia da relação se torne mais viva e vibrante. Precisamos enxergar que a parte que nos diferencia do outro é também o que nos completa e não a que compete conosco e dar igualmente a nossa contribuição de volta.
É obvio que só faz sentido compartilhar uma garrafa do seu licor divino preferido com um amigo, parente, aderente ou mesmo estranho, que – como você – seja adepto da bebida. Se não, toda energia circundante se perde, a comunhão não terá sentido, tampouco a partilha cumprirá o seu propósito, porque não haverá sinergia, interação e envolvimento com o momento. É disso que se trata.
O propósito maior da partilha não é dividir, porém conectar, sintonizar, compartilhar com o outro o que sentimos, desfrutando com os nossos semelhantes de algo em comum, que agregue valor à nossa experiência e nos transforme em pessoas melhores.
A grande diferença entre solidão e solitude é que “na solidão, se encarar de frente é um confronto, dói. Já na solitude, se encarar de frente é um reencontro que constrói”.